A psicologia de Platão tem várias reflexões e contribuições à Terapia Cognitiva-Comportamental (TCC). Há vários conceitos do filósofo grego que podem ser aplicados no âmbito psicoterapêutico. Embora não seja uma abordagem psicológica, a psicologia de Platão faz parte da história da psicologia moderna. Neste artigo de psicologia, apresentaremos a psicologia de Platão, bem como reflexões e contribuições à TCC.
Mundo sensível e das ideias
A psicologia de Platão é calcada nos mundos sensível e das ideias. O mundo sensível é o que capturamos por meio dos sentidos (corpo). Ele é a fonte de engano, de aparências e de ilusões, por ser uma cópia imperfeita do mundo das ideias. O mundo das ideias é o que capturamos por meio da razão (alma racional). Ele é a fonte das formas eternas, universais e perfeitas.
Por exemplo, os dois trilhos de um trem aparentam se tocar no horizonte. Entretanto, racionalmente, sabemos que trilhos paralelos não se tocam. A linha de trem que percebemos pelos sentidos é relativa ao mundo sensível. Todas as linhas de trem são cópias imperfeitas da ideia de linha de trem do mundo das ideias, cuja forma é eterna, universal e perfeita.
Conhecimento e opinião
A psicologia de Platão diferencia opinião e conhecimento. A opinião está calcada no mundo sensível. É quando o ser humano toma a percepção como verdade. Já o conhecimento está calcado no mundo das ideias. É quando o ser humano, pela razão, acessa a forma eterna, universal e perfeita do que se conhece. Sendo assim, conhecer é o mesmo que rememorar o que já se sabia do mundo das ideias antes mesmo de nascer (reminiscência).
Por exemplo, quando dizemos que o limão é azedo, estamos utilizando a percepção como verdade. Se acreditamos na percepção como verdade, estamos nos baseando na opinião. Entretanto, o conhecimento acerca da acidez não se encontra em um limão individual do mundo sensível. Pelo contrário, é no mundo das ideias, na forma eterna, universal e perfeita da acidez, que encontramos o verdadeiro conhecimento.
A psicologia de Platão
Platão não desenvolveu, a rigor, uma abordagem psicológica. A psicologia, da forma como a entendemos hoje, surgiu apenas na modernidade. Apesar disso, muitos filósofos, como Platão, contribuíram para o desenvolvimento da psicologia. Sendo assim, ao falarmos da psicologia de Platão, referimo-nos mais a uma visão filosófica do que propriamente psicológica.
Alma e corpo
A psicologia de Platão apresenta uma visão dualista do ser humano: alma e corpo. A alma é composta por três “partes” — racional, irascível e apetitiva — enquanto o corpo é o instrumento por meio do qual a alma atua no mundo sensível. Por analogia, a alma seria o motorista e o corpo o veículo: sem o corpo, a alma fica impossibilitada de agir diretamente no mundo sensível.
Por exemplo, uma pessoa pode sentir vontade de comer algo e agir de acordo com esse impulso por meio do corpo. Por outro lado, ela pode racionalmente decidir não agir sobre esse impulso por considerar suas consequências, demonstrando a atuação das diferentes partes da alma na condução do comportamento.
Alma racional
É a parte responsável pela razão, pelo conhecimento e pela busca da verdade. Distingue o ser humano dos demais animais. Segundo Platão, é imortal e continua existindo após a morte do corpo. Está simbolicamente associada à cabeça.
Por exemplo, quando uma pessoa decide estudar mesmo sem vontade imediata, por reconhecer a importância de um objetivo de longo prazo, está sob a orientação da alma racional.
Alma irascível
É a sede da coragem, da honra, da indignação e da vontade de lutar pelo que se considera justo. Auxilia a razão no governo da alma quando as emoções são devidamente ordenadas. Está simbolicamente associada à região do peito ou do coração.
Por exemplo, quando alguém se sente indignado diante de uma injustiça e usa essa energia para se posicionar e enfrentar uma situação difícil, está expressando a alma irascível.
Alma apetitiva
É a fonte dos desejos, impulsos e necessidades corporais, como fome, sede, prazer e sexualidade. Está associada à região do ventre.
Por exemplo, quando uma pessoa sente vontade de procrastinar e busca prazer imediato em jogos, comida ou redes sociais, está sendo guiada pela alma apetitiva.
Justiça na alma
A psicologia de Platão compreende a justiça como um estado de harmonia entre as “partes” da alma. Ela ocorre quando a alma racional governa o corpo e a mente, a alma irascível auxilia a razão e a alma apetitiva obedece à razão. Quando cada “parte” da alma exerce adequadamente sua função, o ser humano experimenta equilíbrio e justiça na alma.
Por exemplo, quando uma pessoa sente vontade de procrastinar, mas decide fazer atividade física por reconhecer a importância do objetivo, está ocorrendo um governo da razão sobre os impulsos, com a alma irascível sustentando o esforço e a alma apetitiva sendo regulada.
Já a injustiça ocorre quando a alma apetitiva ou a alma irascível assumem o controle do ser humano. Nesses casos, os desejos, impulsos ou emoções governam a vida da pessoa em detrimento da razão. Como consequência, o ser humano tem a razão enfraquecida, as emoções desordenadas e os impulsos apetitivos determinam o destino da pessoa.
A virtude
A psicologia de Platão compreende a virtude como a excelência da alma. Uma pessoa virtuosa é aquela que desenvolve equilibradamente as capacidades de cada “parte” da alma. A alma racional expressa a virtude da sabedoria, a alma irascível manifesta a virtude da coragem e a alma apetitiva mostra a virtude da temperança. Quando essas virtudes atuam em harmonia, produz-se a justiça na alma.
Por exemplo, diante de uma situação de conflito no casamento, uma pessoa pode agir impulsivamente, guiada pela raiva ou pelo desejo de vingança. Entretanto, quando a razão governa a conduta e as demais partes da alma cumprem adequadamente suas funções, a pessoa age de forma virtuosa. Para Platão, a virtude não é apenas um comportamento correto, mas um estado de excelência e harmonia da alma.
O bem
A psicologia de Platão está fundamentada na ideia de que existe um Bem supremo, eterno e imutável. Ele serve de fundamento para o conhecimento e para a ação do ser humano. O Bem é a mais elevada das ideias e torna possível conhecer as demais formas do mundo das ideias. Assim como o Sol ilumina os objetos do mundo sensível, o Bem ilumina as ideias e permite que sejam conhecidas pela razão.
Por exemplo, um médico pode possuir conhecimento técnico, inteligência ou habilidades específicas. Entretanto, sem a orientação do Bem, esse conhecimento pode ser utilizado de maneira inadequada. Para Platão, conhecer verdadeiramente implica orientar a alma em direção ao Bem, utilizando a razão para buscar aquilo que promove a excelência, a justiça e a realização humana.
O mito da caverna
O mito da caverna é uma maneira alegórica de compreender a psicologia de Platão. Prisioneiros se encontram dentro de uma caverna de costas para a luz (saída). Eles veem sombras projetadas nas paredes e acreditam que são reais. Como nasceram e cresceram dentro da caverna, não conhecem outra vida senão as opiniões e percepções.
Entretanto, um dos prisioneiros consegue se libertar e sair da caverna por meio da filosofia. Inicialmente, a luz do sol o incomoda e dificulta sua visão, mas, aos poucos, se acostuma e percebe que o mundo exterior é mais real do que as sombras dentro da caverna. Ao retornar para contar o que descobriu por meio da filosofia, é recebido pelos prisioneiros com desconfiança, deboche e rejeição.
Para Platão, a caverna representa o mundo sensível (finito, individual e imperfeito), enquanto o mundo exterior representa o mundo das ideias (eterno, universal e perfeito). Já as sombras simbolizam as opiniões e percepções compartilhadas. Por fim, a saída da caverna representa o movimento da alma do filósofo em direção ao conhecimento verdadeiro, alcançado por meio da razão.
Reflexões e contribuições à TCC
Agora, realizaremos algumas reflexões e contribuições da filosofia de Platão à TCC. Embora os exemplos sejam demasiadamente simplistas, eles evidenciam a importância de um psicólogo. O psicólogo é como um filósofo que ajuda a pessoa, na medida do possível, a sair de dentro de sua própria “caverna platônica”.
Adolescente
Um adolescente perfeccionista de 17 anos acredita que não é capaz de passar em medicina. Ele interpreta qualquer erro em provas como evidência definitiva de incapacidade. Quando tira uma nota abaixo do que considera ideal, conclui automaticamente: “eu não nasci para isso”.
Ele está preso “na caverna” (opinião), confundindo percepções com fatos, sem acessar o conhecimento racional (conhecimento). Suas crenças funcionam como sombras do mundo sensível (mundo sensível), sem contato com a realidade mais ampla do mundo das ideias (mundo das ideias).
Nesse funcionamento, há injustiça na alma (injustiça na alma), com a alma apetitiva (desejos de fuga, jogos e prazer imediato) assumindo o controle, enquanto a alma racional (razão) perde espaço e a alma irascível (coragem e energia para enfrentar desafios) fica enfraquecida.
No processo terapêutico, o adolescente aprende a questionar suas crenças e a diferenciar percepção de realidade. Aos poucos, reorganiza sua estrutura interna com a razão assumindo o governo (justiça na alma), fortalecendo a coragem (virtude da alma irascível) e reduzindo comportamentos de evitação.
Mulher adulta
Uma mulher de 35 anos, bem-sucedida profissionalmente, sente um forte sentimento de inadequação. Apesar dos resultados concretos, acredita que não é valorizada e que será “descoberta” como incapaz. Interpreta sinais neutros como rejeição do chefe.
Ela está presa “na caverna” (opinião), tomando interpretações como fatos. Não acessa o conhecimento racional (conhecimento). Suas crenças funcionam como sombras do mundo sensível (mundo sensível), afastadas do mundo das ideias (mundo das ideias).
Nesse funcionamento, há injustiça na alma (injustiça na alma), com a alma apetitiva (necessidade de aprovação e segurança) e a alma irascível (sensibilidade à crítica e à rejeição) interferindo na clareza da alma racional (razão). A ordem interna se enfraquece.
No processo terapêutico, ela aprende a questionar suas interpretações e a diferenciar pensamentos de fatos. Reorganiza sua estrutura interna com a razão assumindo o governo (justiça na alma), fortalecendo a estabilidade emocional (virtude da alma irascível) e reduzindo a autocrítica.
Homem adulto
Um homem de 42 anos vive em constante ansiedade em relação ao trabalho e à família. Acredita que precisa controlar todas as variáveis para evitar fracassos. Quando algo foge do planejado, interpreta como sinal de desastre.
Ele está preso “na caverna” (opinião), reagindo às aparências imediatas da realidade. Não acessa o conhecimento racional (conhecimento). Suas interpretações funcionam como sombras do mundo sensível (mundo sensível), distantes do mundo das ideias (mundo das ideias).
Há injustiça na alma (injustiça na alma), com a alma apetitiva (necessidade de controle e segurança imediata) dominando suas ações, enquanto a alma racional (razão) perde espaço e a alma irascível (tensão e hiperalerta) se intensifica.
No processo terapêutico, ele aprende a flexibilizar suas crenças e diferenciar possibilidade de probabilidade. Reorganiza sua estrutura interna com a razão assumindo o governo (justiça na alma), desenvolvendo maior estabilidade emocional e reduzindo o controle excessivo.
Considerações finais
A psicologia de Platão, embora não seja uma abordagem psicológica, traz importantes reflexões e contribuições à TCC. Na contemporaneidade, é bastante comum as pessoas confundirem percepções, pensamentos, emoções e sensações corporais com a realidade. Como consequência, vivem aprisionadas em um mundo de engano, de aparências e de ilusões. Faça terapia no WAF Psicologia: Atendimento Online.









