A psicologia de Aristóteles apresenta diversas reflexões e contribuições à Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC). Embora Aristóteles não tenha desenvolvido uma abordagem psicológica, muitos de seus conceitos continuam relevantes para compreender o ser humano. Sendo assim, a psicologia de Aristóteles faz parte da história da psicologia moderna. Neste artigo de psicologia, apresentaremos a psicologia de Aristóteles, bem como reflexões e contribuições à TCC.
Substância, matéria e forma
A psicologia de Aristóteles está fundamentada na teoria da substância. Para Aristóteles, todos os seres concretos são constituídos por matéria e forma. A matéria corresponde àquilo de que um ser é feito, ao passo que a forma é o princípio organizador da matéria, fazendo com que o ser seja exatamente o que é. A união inseparável entre matéria e forma constitui a substância do ser (hilomorfismo).
Por exemplo, uma cadeira possui matéria e forma, que constituem a substância do seu ser. Uma cadeira pode ser feita de madeira, plástico ou metal. Ela pode ser vermelha, preta ou azul. Apesar dessas mudanças materiais, continua sendo uma cadeira, pois sua forma permanece a mesma. Da mesma maneira, uma pessoa pode envelhecer, cortar o cabelo ou mudar suas roupas. Entretanto, sua natureza humana permanece a mesma, pois sua forma continua sendo a de ser humano.
Essencia e acidentes
A psicologia de Aristóteles distingue aquilo que é essencial no ser daquilo que é acidental. A essência do ser corresponde ao que o ser é e não pode deixar de ser. Já os acidentes são características que podem mudar no ser sem alterar a sua essência. Sem a essência, o ser deixa de ser o que é e passa a ser outra coisa diferente de sua natureza.
Por exemplo, um omelete pode ter queijo, cebola, sal, cebolinha, bacon e outros ingredientes (acidentes). No entanto, o omelete deixa de ser omelete se não tiver ovo, pois o ovo é a sua essência. De forma semelhante, um ser humano pode se vestir e parecer como um cachorro, policial ou árvore. No entanto, a sua essência continua sendo a de um ser humano.
Ato e potência
A psicologia de Aristóteles compreende que os seres estão em constante processo de atualização de suas potencialidades. Potência é a capacidade do ser vir a ser o que pode ser em sua completa realização. Já ato é a realização dessa mudança, no sentido da passagem da potência para a realização plena. Em suma, todos os seres contingentes possuem ato e potência.
Por exemplo, uma semente de milho não é um pé de milho, mas possui a potência de ser um pé de milho. Uma semente de milho não possui a potência de ser um pé de manga, pois não é de sua natureza. Da mesma maneira, uma criança possui a potência para desenvolver linguagem, pensamento racional e moralidade. Essas potencialidades podem ser atualizadas no âmbito da família, da escola e da sociedade.
Necessário e contingente
A psicologia de Aristóteles distingue aquilo que é necessário no ser daquilo que é contingente. O necessário é eterno e imutável, independentemente do espaço e do tempo. Já o contingente é limitado, finito e mutável, pois envolve potência e ato de vir a ser. Portanto, há no ser tanto traços necessários de sua natureza quanto potências que podem ser atualizadas.
Por exemplo, é próprio da natureza do cachorro latir, do gato miar, da galinha cacarejar e do ser humano raciocinar e se comunicar por meio da linguagem. Porém, é contingente que os animais sejam tratados como humanos e estes como animais. Da mesma maneira, é necessário que o homem seja macho e a mulher seja fêmea para que ocorra a procriação humana. Entretanto, é contingente a profissão, o estilo de vida e os hábitos que cada pessoa desenvolve.
As quatro causas
A psicologia de Aristóteles também pode ser compreendida a partir da teoria das quatro causas: a causa material, a causa formal, a causa eficiente e a causa final. A causa material corresponde ao elemento de que algo é constituído. A causa formal é aquilo que faz uma coisa ser exatamente o que é. A causa eficiente refere-se ao agente responsável pela mudança da potência ao ato. Por fim, a causa final corresponde ao propósito ou finalidade para a qual algo existe.
Por exemplo, uma mesa de madeira possui como causa material a madeira. Sua forma específica de mesa corresponde à causa formal (mesa é mesa, não geladeira). O carpinteiro que a construiu representa a causa eficiente. Já sua finalidade de servir como apoio para refeições, estudos ou trabalho corresponde à causa final. Da mesma maneira, o comportamento humano também pode ser compreendido a partir de diferentes causas, que contribuem para o seu desenvolvimento e sua realização.
A concepção aristotélica da alma
A psicologia de Aristóteles apresenta uma concepção de alma bastante diferente daquela desenvolvida por Platão. Enquanto Platão compreendia alma e corpo como duas entidades distintas, Aristóteles entendia que ambos constituem uma única substância. O corpo humano corresponde à matéria e a alma humana à forma — ou seja, ao princípio organizador que torna o ser humano em humano.
Por exemplo, o sistema operacional de um computador, aplicativos e programas dizem respeito à forma (software). Já a matéria do computador, como placa-mãe, memória RAM e processador, diz respeito à matéria (hardware). Não existem duas substâncias separadas, mas um hilemorfismo entre matéria e forma, que faz o computador ser computador (e não televisão).
De forma semelhante, a personalidade, os pensamentos e as memórias de uma pessoa dizem respeito à forma. Já o cérebro e o corpo dessa pessoa dizem respeito à matéria. É essa inseparabilidade entre forma e matéria que faz a pessoa ser ela mesma (e não outra). Por isso, os transtornos mentais, em uma concepção aristotélica, são sempre também alterações do cérebro e do corpo.
As potências da alma
A psicologia de Aristóteles afirma que vegetais, animais e seres humanos possuem alma, uma vez que possuem forma e matéria. Entretanto, a alma a que o filósofo grego se refere é a própria forma do ser vivo, ou seja, não se trata de um “fantasminha” dentro do corpo. No ser humano, as potências da alma vegetativa, sensitiva e racional são atualizadas ao longo do desenvolvimento.
Os vegetais possuem alma vegetativa, mas são destituídos das almas sensitiva e racional. Afinal, os vegetais não pensam nem possuem sistema sensorial. Já os animais possuem alma vegetativa e sensitiva, mas são privados da alma racional. Afinal, os animais são irracionais e não conversam. Por fim, apenas o ser humano possui alma vegetativa, sensitiva e racional, embora suas potências necessitem ser atualizadas ao longo da vida.
Por exemplo, quando uma bananeira absorve água pelas raízes e produz bananas, é sua alma vegetativa quem possibilita essas funções. Quando um cachorro late diante de um gato, é sua alma sensitiva que reage instintivamente. Por fim, quando o ser humano raciocina, conversa e produz cultura, é sua alma racional quem torna essas atividades possíveis.
No ser humano bebê, predominam as potências da alma vegetativa, responsáveis pela nutrição, crescimento e desenvolvimento do organismo. À medida que a criança interage com a realidade, as potências da alma sensitiva tornam-se mais elaboradas, permitindo perceber o ambiente pelos sentidos. A partir da adolescência, as potências da alma racional continuam sendo atualizadas por meio da educação, da cultura e da experiência.
Hábito e formação do caráter
A psicologia de Aristóteles compreende que o caráter não nasce completamente pronto. Embora cada pessoa possua determinadas potencialidades próprias de sua natureza, é por meio dos hábitos que essas capacidades são desenvolvidas ao longo da vida. As ações repetidas moldam a maneira como a pessoa pensa, sente e se comporta.
Por exemplo, uma pessoa que pratica diariamente a honestidade tende a tornar-se cada vez mais honesta. Da mesma forma, alguém que frequentemente mente passa a fazer da mentira um hábito, tornando esse comportamento cada vez mais natural. Assim, o caráter é formado pelas escolhas repetidas ao longo da vida.
As virtudes
A psicologia de Aristóteles distingue as virtudes intelectuais das virtudes morais. As virtudes intelectuais desenvolvem-se principalmente pelo ensino, pelo estudo e pela experiência. Já as virtudes morais são adquiridas pela prática constante de boas ações, pelas paixões e pelos modelos sociais de referência. Em ambos os casos, a virtude é sempre desenvolvida por meio do hábito e da formação do caráter.
Por exemplo, uma pessoa não se torna forte e saudável apenas estudando nutrição e atividade física. É no dia a dia, nas coisas simples, que essas capacidades são desenvolvidas. Evitar alimentos hipercalóricos, praticar atividade física mesmo desmotivada e ter boas referências são indispensáveis. Os mesmos mecanismos que constroem virtudes também podem fortalecer vícios.
O justo meio
A psicologia de Aristóteles afirma que a virtude geralmente se encontra entre dois extremos opostos. Esse princípio ficou conhecido como a doutrina do justo meio. Não significa escolher uma posição intermediária em qualquer situação, mas encontrar a resposta mais adequada conforme as circunstâncias de acordo com a razão.
Por exemplo, diante de um perigo real, tanto a covardia quanto a imprudência representam extremos prejudiciais. A pessoa covarde evita qualquer enfrentamento, enquanto a imprudente expõe-se desnecessariamente ao risco. A coragem consiste em enfrentar a situação na medida adequada. A pessoa corajosa também sente medo, embora este não a determine.
Prudência
Entre todas as virtudes intelectuais, Aristóteles atribui especial importância à prudência. A prudência é a capacidade de deliberar corretamente sobre aquilo que deve ser feito em cada circunstância concreta. Ela permite aplicar os princípios gerais às situações particulares da vida, sem cair em generalizações excessivas.
Por exemplo, duas pessoas podem conhecer igualmente que a sinceridade é uma virtude. Entretanto, uma delas sabe escolher o momento, a forma e as palavras mais adequadas para comunicar uma verdade difícil, enquanto a outra fala impulsivamente, causando sofrimento desnecessário. Ambas conhecem o mesmo princípio, mas apenas uma age com prudência.
A felicidade
A psicologia de Aristóteles compreende que a finalidade do ser humano é a felicidade. Entretanto, felicidade não corresponde simplesmente à obtenção de prazer, riqueza, fama ou poder. Para Aristóteles, a verdadeira felicidade consiste na realização plena da natureza humana por meio de uma vida racional e virtuosa.
Por exemplo, uma pessoa pode alcançar grande sucesso financeiro, fama e poder, mas ainda assim se sentir vazia. Em contrapartida, uma pessoa que vive de forma virtuosa e racional, mesmo sem grandes riquezas, consegue enfrentar melhor os desafios da vida. Ao atualizar as potências humanas, a tendência é sentir-se mais pleno existencialmente.
Razão e emoções
A psicologia de Aristóteles não propõe eliminar as emoções, mas as integrar e as orientar de acordo com a razão. As emoções fazem parte da natureza humana e exercem funções importantes para a sobrevivência, os relacionamentos e a moralidade. O problema não está em senti-las, mas em permitir que sejam vivenciadas de maneira desordenada.
Por exemplo, o medo pode proteger uma pessoa de um acidente de carro. A raiva pode orientar uma pessoa em busca da justiça. O nojo pode proteger uma pessoa de doenças. A tristeza pode ser um convite para uma pessoa mudar de hábitos. Entretanto, quando são desordenadas, as emoções podem impedir a pessoa de agir de forma virtuosa e racional.
Reflexões e contribuições à TCC
Agora, realizaremos algumas reflexões e contribuições da filosofia de Aristóteles à TCC. Embora os exemplos sejam demasiadamente simplistas, eles evidenciam a importância de um psicólogo. O psicólogo auxilia a pessoa a atualizar potências ao longo do desenvolvimento, rumo a uma vida feliz, racional e virtuosa.
Adolescente
Um adolescente de 16 anos passa grande parte do dia trancado no quarto jogando videogame. Ele se alimenta principalmente de refrigerantes, salgadinhos, doces e alimentos ultraprocessados. Com o passar do tempo, desenvolve obesidade, sedentarismo e baixa autoestima. Por fim, entra em depressão por acreditar que não tem saída.
Sob a perspectiva aristotélica, esse adolescente fortalece hábitos incompatíveis com suas potencialidades humanas. Em vez de desenvolver a racionalidade e virtudes, como a temperança, a prudência e a disciplina, organiza sua vida em torno de prazeres imediatos. Passa a acreditar, equivocadamente, que esses hábitos desajustados fazem parte de sua própria natureza.
No processo terapêutico, o adolescente aprende a modificar gradualmente seus hábitos, desenvolvendo a prudência e buscando o justo meio em suas escolhas. À medida que atualiza suas potencialidades por meio de pequenas mudanças repetidas diariamente, aproxima-se de uma vida mais saudável, equilibrada e feliz.
Mulher adulta
Uma mulher de 35 anos deseja tirar sua carteira de motorista. Entretanto, acredita que não nasceu para dirigir e que nunca será capaz de conduzir um carro. Sempre que pensa em fazer as aulas práticas, sente medo, evita as autoescolas e assiste a vídeos de acidentes na internet. Por fim, autossabota-se e procrastina a obtenção da carteira de motorista.
Sob a perspectiva aristotélica, essa mulher interpreta seu estado atual como se fosse definitivo, deixando de atualizar suas potencialidades. Em vez de desenvolver virtudes como a coragem, a prudência e a perseverança, fortalece hábitos de evitação e insegurança. Ela acredita, equivocadamente, que sua dificuldade atual faz parte de sua própria natureza.
No processo terapêutico, ela aprende a enfrentar gradualmente seus medos, desenvolvendo a prudência e a coragem. Aos poucos, percebe que dirigir é uma habilidade desenvolvida por meio do hábito, da aprendizagem e da repetição. À medida que atualiza suas potencialidades por meio de pequenas conquistas, fortalece sua confiança e aproxima-se de uma vida mais autônoma, racional e feliz.
Homem adulto
Um homem de 42 anos sempre sonhou em aprender a andar de skate. Entretanto, acredita que já está velho demais para começar, que será alvo de críticas e que nunca aprenderá. Sempre que pensa em comprar um skate, desiste da ideia por medo de cair, de passar vergonha e de ser julgado pelas outras pessoas.
Sob a perspectiva aristotélica, esse homem interpreta sua idade como um limite definitivo, deixando de atualizar potencialidades que ainda podem ser desenvolvidas. Em vez de cultivar virtudes como a coragem, a prudência e a perseverança, fortalece hábitos de autolimitação, evitação e conformismo. Ele acredita, equivocadamente, que sua zona de conforto faz parte de sua própria natureza.
No processo terapêutico, ele aprende a enfrentar gradualmente seus receios, desenvolvendo a prudência e a coragem diante de novos desafios. Aos poucos, percebe que aprender um esporte é resultado de prática, repetição e formação de hábitos. À medida que atualiza suas potencialidades por meio de pequenas conquistas, fortalece sua autonomia e se aproxima de uma vida mais racional, virtuosa e feliz.
Considerações finais
A psicologia de Aristóteles, embora não seja uma abordagem psicológica, traz importantes reflexões e contribuições à TCC. Na contemporaneidade, é bastante comum as pessoas acreditarem que seus hábitos, limitações e dificuldades atuais fazem parte de sua própria natureza. Como consequência, deixam de atualizar suas potencialidades, fortalecem hábitos desadaptativos e se afastam de uma vida racional, virtuosa e feliz. Faça terapia no WAF Psicologia: Atendimento Online.









