Caminhada Acorda Brasil: Análise Cognitiva-Comportamental

A Caminhada Acorda Brasil encontra-se no limiar entre a sanidade e a loucura. Da sanidade, extrai-se o simbolismo, a socialização e a mobilização política da direita. Da loucura, extraem-se pensamentos mágicos, dissociativos e psicóticos. Por isso, não é raro ver a esquerda política dando risadas sarcásticas da Caminhada Acorda Brasil. Neste artigo de opinião, faremos uma análise cognitiva e comportamental do fenômeno.

Pensamentos mágicos

A Caminhada Acorda Brasil apresenta diversos pensamentos mágicos: falsas associações de causa e efeito. Caminhar por dias, pintar o rosto de verde e amarelo, piscar luzes, bater panelas ou repetir frases não mudará o país. Esses comportamentos supersticiosos não reduzirão a inflação, o desemprego, o analfabetismo, o crime organizado ou os abusos do Estado. Pensamentos mágicos são comuns em crianças entre dois e seis anos, em portadores de transtornos mentais e em sociedades primitivas, pois confundem símbolo com causalidade real.

Pensamentos emocionais

A Caminhada Acorda Brasil apresenta também pensamentos emocionais: atalhos cognitivos que confundem emoções com realidade objetiva. O fato de as pessoas se sentirem bem, alegres ou esperançosas não altera os dados concretos da economia, da sociedade ou da política. Emoções e sensações corporais vivenciadas durante a caminhada — boas ou ruins — não são critérios de verdade. Pensamentos emocionais aparecem com frequência em transtornos de ansiedade e do humor, como bipolaridade, fobias e transtorno do pânico, quando o sentir passa a substituir o verificar.

Pensamentos messiânicos

A Caminhada Acorda Brasil apresenta ainda pensamentos messiânicos: ideias de revelação, preferência e salvação divina aplicadas à política. Misturam-se fé e poder, e políticos ou líderes religiosos são elevados à condição de possíveis heróis nacionais (saiba mais). O messianismo segue a jornada do herói: começa na esperança, passa pelo entusiasmo coletivo e frequentemente termina na desilusão e no ressentimento. O messianismo político não é novidade no Brasil, pois é a continuidade do messianismo português.

Sintomas dissociativos

Observam-se também elementos dissociativos: cisões na estrutura e no funcionamento do EU corporal e psíquico. Diante de problemas econômicos, políticos e sociais percebidos como insolúveis sob o ponto de vista individual, as resistências psicológicas se fragilizam. Esses conflitos podem manifestar-se como êxtases “espirituais” e sintomas psicossomáticos — déjà-vu, premonições, dores de cabeça, desmaios, diarreia, insônia. O corpo passa a expressar aquilo que a razão não consegue organizar.

Sintomas psicóticos

Há ainda traços psicóticos no discurso coletivo: delírios e interpretações distorcidas da realidade. As redes sociais criam bolhas perceptuais, dificultam o teste de realidade e reforçam o viés de confirmação. Uma pichação com a frase “Jesus voltará” torna-se prova inquestionável de que o Brasil mudará. Um raio vira evidência de que o sistema é dominado por Satanás. Uma fala de Trump transforma-se em garantia de que os Estados Unidos ajudarão a restabelecer a democracia. O símbolo passa a valer mais que o fato.

Caminhada como politicagem

A direita política — no caso, políticos, burocratas e grupos de poder — utiliza a Caminhada Acorda Brasil como desculpa ou como palanque político? Afinal, é mais fácil fazer caminhada, pintar o rosto de verde e amarelo, balançar a bandeira do Brasil, cantar e orar do que, de fato, “colocar a mão na massa”. Mobilizar as emoções das pessoas por meio de pensamentos distorcidos, sintomas psiquiátricos e usar o nome de Deus não resolverá os problemas estruturais do país.

Mas, e a realidade do Brasil?

A atuação dos brasileiros precisa ser objetiva, resolutiva e pragmática na solução dos problemas estruturais. Não se combate inflação, desemprego e miséria apenas com manifestações ou esperando um salvador — seja Lula, Nikolas, Bolsonaro ou qualquer outro nome. Não se enfrenta crime organizado, psicopatas ou narcisistas apenas rezando o Pai-Nosso ou balançando a bandeira do Brasil. Sem ações concretas, planejamento estratégico e responsabilidade política, permanece-se no campo do pensamento mágico, onde não há relação real entre causa e efeito.

Considerações finais

A Caminhada Acorda Brasil pode ser compreendida como reflexo de uma sociedade psicologicamente tensionada. As pessoas já não sabem o que fazer diante dos impasses econômicos, políticos e sociais. Embora o movimento possa carregar boas intenções, não se pode ignorar os elementos emocionais, messiânicos e dissociativos presentes. Se ações objetivas e concretas não forem realizadas, a Caminhada Acorda Brasil será apenas mais uma “dança da chuva” da direita política — um ritual simbólico que produz catarse, mas não transformação estrutural.

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